quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Às vezes a minha teimosia tem razão

Minha teimosia tem o gosto do sal que escorre em teu suor
Tem as cores das roupas jogadas no chão 
É o medo do que vem depois da noite
A saudade que dói incerta pelas manhãs

Minhas certezas precisam te convencer 
A covardia do medo mata, pelo vazio,
Seca os vasos das plantas que lhe dei
Nos acomete em inanição de nós mesmos

O brio que formiga o estômago e faz, do simples, 
Nutritivo alimento para as nossas certezas
Conhece a dureza do andar errado 
Mas sabe também o caminho da volta 
Estrada de pista simples, esburacada e com curvas sinuosas
que ao fim, guarda a beleza da paisagem do amor

Abaixo de minhas crenças
Sob a égide de toda a minha ignorância 
Sei de minha insignificância 
Sei de minhas incoerências
Mas sei deixar essa força estranha me fazer querer o bem

Conheço o mapa do seu corpo
Estive em seus trópicos
Morei em tua capital
Visitei o seu norte
Entre giros, idas e vindas percorro as estradas dos meus erros inéditos
Enquanto permaneço esperando passar mais uma vez por seu portão 


sábado, 20 de dezembro de 2025

Maior que minhas costas

Meu bem, todas as coisas que se apresentam aos meus caminhos
Na verdade, eu não as vejo
Digiro as cores
Duvido os valores das formas e sons que preenchem vidas
Enxergo em sépia o extraordinário indiferente 

Tenho amarrado ao meu corpo
Uma junção de efemérides
Que me acontecem sucessivamente e fazem os dias iguais
Durmo e acordo com os pensamentos fora da minha cabeça 
Perdidos na derrota dos rastros percebidos

Mesmo beirando o mar, minhas ondas me fazem estático  
Não levam nem trazem
Estas falésias milenares não me inspiram
Os meus, sentados em volta da mesa não me explicam
É uma sina, olhar os detalhes ausentes e doer todas as culpas 

Não sei
Não tenho lugar para guardar tudo isso
É maior que minhas costas
Maior que minhas gavetas



domingo, 21 de setembro de 2025

O plural que podemos ser

Meu pensamento mora onde repousa o desassossego
Tem o cheiro da tua chuva 
Que cai da minha teimosia
E insiste em dizer
Seu corpo avulso não deve ter medo
De perceber a mudança, talvez tardia, a te merecer
Sua cabeça, repousa na minha 
Selando o plural que podemos ser







sábado, 20 de setembro de 2025

Eu não entendo

Estive em lugares onde não quis ficar 
Divagando em concordância
Evitando sobras 
Pronto para partir ao abrir da porta

Fiquei em lugares onde não quis estar
Bradando em discordância
Esparramando exageros
Convivendo com a porta aberta 



sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Receita para iluminar a ausência

Brando vento que soprou na minha tempestade, 
Refletiu a luz que julguei apagada. 
Um porto a estimar meu mar de confusão, 
Nutrindo em chuva o solo das minhas brechas. 
Agora, 
Brilha à distância na saudade que ilumina a ausência.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O paradoxo do regresso

Depois do inverno do teu desamparo, 
Da amarga seca de afeto, 
Teus lábios, abrigo dos meus problemas, 
Remendam, por um instante, o rasgo da flecha que me atravessou.

Numa incoerência idiota, 
Afio a faca que me cortará, 
Encontrando no cheiro que tanto me funde 
O mesmo veneno que me matou ontem.

Na busca pela dose que suporto, 
Regrido, inconformado, 
Deixando que o instante do toque me faça suportar a minha própria negligência. 
Deliro sobre o que sinto, 
Como se talvez fosse a última vez 
A sentir essa força estranha que me põe a contradizer a razão.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Depois da curva

A tristeza é um acidente 
que sucede a curva fechada
e impede os olhos de perceberem o que está por vir
na estrada que se imaginava ser caminho para o bem

A ausência da felicidade mora nas entranhas dos desejos 
se faz em frestas à ocupar espaços vazios
ecoa involuntária a qualquer ato que nos faça estranhar a aceitação
como uma revelia que cisma em doer no corpo









terça-feira, 24 de junho de 2025

Emaciado

Emaciado às avessas,  
Jejuando daquilo que me preenche e some,  
Vou guardando em paredes ocas, para além da miséria  
Sem preço,  
A dúvida da impermanência.  

E nos bolsos sanfonados  
De prontidão,  
Meus demônios se acomodam  
E aguardam pelo tom dramático de noites frias,  
Quebrando a quarta parede.  

Sigo pela rota rude 
Onde os fracassos são degraus  
Talhados à força na pedra bruta da vontade.  
A cada queda, um clarão ilumina a senda estreita.  

Discípulo de Sísifo,  
Como da mão de quem faz a fome,  
Respirando fundo na subida,  
Nesta luta da existência humana contra o absurdo de ideias que não me entendem

domingo, 8 de junho de 2025

Estoico

Tenho as dúvidas de quem é plástico para moldar  
as necessidades das formas de quem manda.  
Sou peça de lego em larga escala,  
fechadura a se abrir com improvisos.  
Receita batida de gente com paladar viciado.  

Sou a continuidade daquilo que já foi certo,  
cegueira da calmaria  
que destoou da presunção  
e afogou em lástima a roupa limpa e passada  
de alguém que queria parecer adequado.  

Em minha cama,  
descanso as causas que me fazem perder a certeza.  
Deito estoico e perco o sono humano;  
abraço a bela mulher que me põe a estimar o que presta da vida  
para acordar e deixar a dor dosar a consciência dos acontecimentos. 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Neblina

Coisas que não fiz  
Das pilhas de dúvidas-âncoras.  
Grama sob a neblina de amanheceres,  
Quando falta a súbita clareza  
De desejar além de simplesmente querer.  

Aquela confusão de temer que o outro conheça o próprio âmago,  
Fixação apática e expectante do presente.  
O assistir à aceitação do acontecimento porvir,  
Passividade ante as dobras e sobras que se apresentam como opções.  

Por fim,  
Restam discursos revisionistas e cacos de orgulho.  
Em algum rodapé,  
Esquecida no chão, a gaze usada para acobertar a ferida exposta.
O mau cheiro da saudade torta,  
Daquela que já não se admite  
Por amor próprio.  

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Ódio e força ética

 
Raiva é rio oculto que mina a rocha muda, 
fúria forjada em crisol de vontade fria.  
Usa o verbo afiado, a lâmina precisa,  
como o oleiro molda a cólera sombria.  

No subsolo inconsciente, sem medida,  
fermenta o fel que corrói.  
É sombra aflita,  
raiz de cardo em áridas estações.  

Uma chama anarquista domada
com força a doer os limites.
Tempero de gana ínsita, s
e não liberta, internaliza,  
vira veneno lento a penetrar.  

O vulcão que nos demora
caldeia a chama em sol interno e confuso.
Os papéis nus da consciência
organizam o ódio em força ética e lúcida.

Nas erupções que forçam migrações
homem não é quem esconde a ferida.
É quem domina o inferno e o ergue para ser,
fadigado da labuta das defesas sem perder jamais a sua ternura.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

A fúria silenciosa de estar vivo

Hoje o tempo coroa de espinhos e asas
em um mundo campo de batalha e festa
onde pisam passos fortes, guardando a ternura nas entranhas.
A vida é breve, mas o homem basta.

Hoje o sapato gasta a sola 
e a boina guarda vulcões adormecidos.
A dúvida se justifica 
às melodias sem letras.

Tem que ir.
Sempre.
Mesmo que pela fúria silenciosa de estar vivo.
Mesmo que o deserto revele espelhos.

Levar na garganta o sal
e palavras que não vieram a tempo.
Mas no bolso ter as mãos 
que abrem caminhos sem bússolas.

Rasgar portanto, o véu dos manuais das derrotas.
Fracasso é o agora.
Amanhã, talvez.
De novo.
Foda-se.