Raiva é rio oculto que mina a rocha muda,
fúria forjada em crisol de vontade fria.
Usa o verbo afiado, a lâmina precisa,
como o oleiro molda a cólera sombria.
No subsolo inconsciente, sem medida,
fermenta o fel que corrói.
É sombra aflita,
raiz de cardo em áridas estações.
Uma chama anarquista domada
com força a doer os limites.
Tempero de gana ínsita, s
e não liberta, internaliza,
vira veneno lento a penetrar.
O vulcão que nos demora
caldeia a chama em sol interno e confuso.
Os papéis nus da consciência
organizam o ódio em força ética e lúcida.
Nas erupções que forçam migrações
homem não é quem esconde a ferida.
É quem domina o inferno e o ergue para ser,
fadigado da labuta das defesas sem perder jamais a sua ternura.