Desfiam-me as ausências diárias
distância de gestos e abraços impossíveis,
morada da espera
Sangria de sentires intermináveis
ante a vida que se faz arrastada na contagem presente
e o esperançar impalpável do futuro
Muitos dias sem dizer
do toque e o transe do atrito de corpos independentes
preenchidos com a rebeldia do amor
porque lá fora nos querem tristes
Em dupla, as vitrines não importam aos passos que se fazem vizinhos
há de se gastar a sola, colecionando os desgastes de um mesmo caminho
dobrando a concretude e a pondo nos bolsos
deixando secar o que era líquido
e aguando a necessidade de chorar chovendo pra fora
Ter medo é olhar as paredes de dentro e não gostar do que se vê
dissabor de saber engolir a indigesta sensação de morte
ao ver no céu
a lua
o esforço em ciência
tempo e vida de gente
à provar a finitude inevitável
das palavras, juras de eternidades
Sopro de esforços dos corpos no universo
imaterialidade e instinto de sobrevivência
Já foi muito citado que a palavra saudade não possui tradução literal para outras línguas
mas não é brasileira a dor de não pertencer
A vontade de estar rompe as águas oceânicas
Saudade é faca mal amolada
que rasga sem corte, a carne doce
contra as fibras dos músculos abdominais
expondo todas as visceras humanas que nem sabemos que temos