segunda-feira, 3 de junho de 2019

Mediunidade ou esquizofrenia

Fervor demais
acusa
primazia vazia.
Dogma, doutrina e encantaria,
a inevitabilidade dos desfechos
e
perecibilidade do vivo,
fazem,
os ritos de passagem,
o sentido dos ciclos,
poetas, cientistas, artistas
e o medo da finitude de todas as necessidades da vida física e material não bastarem.

Não bastar o amor e nem o agora.
Nem eu, insuficiente.
Ou a ruína da nação, nós, a contradição, a culpa e a política.
Não bastar a certeza silenciosa
de que a longevidade,
tranquilidade,
qualidade de vida,
sejam migalhas,
miseráveis demais,
aos olhos da grandeza do universo.
Acreditar é ceder ao tempo finito das ideias em decomposição,
conforme os seres produtos de si mesmos.

Assumo.
A crença é uma força.
Permissão fatal.
Rompe as limitações da pessoalidade
e justifica multidões.
É preciso cuidado.
Manter-se longe dos mitos.
Longe da hierarquia espiritual
e das milícias do pós morte.
Não ser escambo de possibilidades,
por acessibilidade a um pedaço de céu
que é apenas ponto de vista desse chão.

O céu morre com os olhos.
Com um todo de partes diferentes em eterna expansão.
As partes,
todas elas necessárias.
E que se completam, indiferentes.
E que não adianta querer sair disso.

Não adianta querer imitar a parte que não é.
Não adianta forjar representantes.
Não adiantou a inquisição.
Não adianta o Estado Islâmico.
Não adianta grande parte de toda uma literatura querer discordar,
descrever à sua maneira,
refazer ideias a todo instante,
tornar bode expiatório a contemporaneidade,
sina maldita de avanço,
tecendo estórias
e editando os deuses,
regulamentando os chakras,
codificando a comunicação com as entidades.
Criando fronteiras e regras para pertencer à tudo isso.
Como se já não fossemos pertencentes à tudo isso,
mesmo contra nossa vontade.
Porque tudo é pertencente.

O transe e a transa
e o gozo sagrado
e o efeito do remédio
e a dor da fome
e a ausência
e a saudade,
beijam os lábios do afeto que deriva devoção.
Pois emoção é marco zero.

A pele é uma curadoria espontânea.
O acontecimento é o milagre do agora.
A imagem humana é sacro e puta.
Deus, mulher e homem.
O diabo, o ego.
Qualquer centímetro pode ser divino.
Também cabe transcendência aos descrentes,
dos pés que abrem os caminhos do nirvana na raça
e se secam nos passos que gastam a fé em culto ao Deus que ninguém vê, ouve e nem sente.