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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bocas de roleta

Pelas beiradas me arrasto
na sombra de quem paira ao centro
discreto e quieto enquanto apenas observo
prólogos e epílogos desenrolarem-se
na perspicaz ligeireza de quem parece não ter nada a perder

Me recolho em alerta aos que gritam
Indago-me desconfiado aos que muito falam mas pouco dizem
absorvendo entrelinhas de engrandecimentos pessoais
como retórica de dádiva dos que tentam se autoafirmar
parindo pernas a palavras vazias que correm dos lábios sem ao menos saberem caminhar

Morre em gestos os discursos
sagrando-se em formas que um dia ecoaram de bocas
na labuta de fazerem-se urgentes em meio a pressa da consumação
Amargurando o dissabor da imponência que arma os fracos
Que buscam proferir sentidos ao que nunca moveram-se para sentir de verdade


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

para a posteridade

Meu peito bateu forte
na mais grave nota que um tambor pode ecoar
bateu de acordo com meus traços
como a barba rala e loira que transborda no caos da minha face

Escorreu lisérgico o combustível
em gotas d'alma que pingaram frenéticas
uníssonas ao esforço do peito e da cabeça
com um peso muito grande para se guardar dentro

Não coube em mim a quietude
que mentiria se falasse com o silêncio
as palavras que me faziam intenso
e derretiam todo meu eu

Somente daqui muito tempo
saberei a contraposição do feeling dos corpos
entre o corpo que serei pelo corpo que sou
pra ser capaz de poder medir o peso desta memória


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

0 g

A leveza é muito mais
é inconstância de matéria que vai
pra lá
pra cá
sem atrito de corpos
dançando no tempo dos ventos

É ronco de fome que arde
que ecoa na dúvida e na incerteza da consumação
um prato vazio
pra gente vazia petiscar

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Código de barras

A melancolia da sombra soturna
Despida e dilacerada em forma de abraço
A cabeça que se deita no peito
O mar cor de rosa da paz de espírito

Corpos escravos da indiferença do dia a dia
De uma vida que vai indo e se ajeitando em discursos
Por palavras que defendem a singularidade do individualismo
E fazem do todo uma guerra de egos

Palavras que ganham vida e força sobre-humana
Capazes de aprisionar a própria boca que as profere
Numa constante provação de ser o que se diz
Em dizer o que há de ser feito enquanto se finge o que é

Basta desapegar-se a si destruindo convenções da própria identidade
Abrindo margens para passos de um rumo sempre novo
Pra fazer cair a instituição que somos
E varrer dos nossos arredores toda a seletividade meritocrática

Nossos medos são idênticos
E que se encontrem
Pra fazer a cabeça tombar no peito da complexidade alheia
Sem a culpa de julgar as diferenças que repelem os corpos


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Corpo de plástico

Ambiguidade que aflige
Ânsia do ciclo descartável
Giro de corpos d'uma anedota instigante
Bocas de roleta

No jus da sorte o corpo vale um preço
Valendo a moral e a integridade
Pela estabilidade em se manter feito uma joia
No apreço de quem um dia admirou a porcelana

Da madeira ao ferro
Do ferro ao vidro
Tem que saber fazer valer
Plenitude materialista de cabeças, pernas e genitálias

Olhos que brilham numa contagem regressiva
Deixando o tempo levar a leveza de sua narrativa
Pois as bocas mentem enquanto o tato finge e força a persuasão
Faz a carne reciclável a qualquer anseio que domine nossos instintos

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Polícia sai do pé

De que adianta eu querer
bater de frente com meus ideais
perante a solidez impenetrável
bruta e ignorante de quem abusa do poder
ostentando a arma na mão

De que adianta discutir
com pedaços estúpidos de carne
que nada compreendem e se encontram adestrados
na condição de serem passivos a ordens
que têm a violência como conduta de um ofício
e fazem da opressão ciência e método para um estilo de vida

Gente que vem na calada
e disparam discretos do jeito mais covarde possível
sem dar alardes
sem permitir holofotes que denunciem suas ações
deixando bem claro o significado da pressão
para impor o peso de armas que sobreponham braços pávidos

Porque é assim que funciona
e é assim que tem que ser
se reclamar apanha
se apanhar tem que calar

Não me rendo a condição
não me dou por vencido
não posso, não devo
são fatos, são reincidências
que fazem valer o meu esforço
de tentar abrir os olhos de quem faz força
pra não ver a violência que se mascara na figura de quem deveria apenas nos servir

sábado, 29 de agosto de 2015

Quando dançam minha música

Basta a ressonância do primeiro acorde para eu me deleitar
Debruçar-me por completo na melodia que ecoa
De olhos fechados
Completamente envolto

Sons que se desenham em minha alma
Materializados pela pulsão de minhas mãos
Pela efervescência que me inquieta
E se afirma como percursora

Soa como um grito
De um coração que bate na mesma velocidade da música
Que sobe pela espinha em forma de energia
E se esvai como redenção nas pequenas gotas de sangue entre meus dedos

Vasão de sentimentos capazes de fazer dançar
De dentro pra fora
Honesto
Sincero



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Identidade

Na vulnerabilidade de uma estima perecível
Sob um peso que instiga qualquer controle
Estabelece-se ofegante o corpo que grita em silêncio
Enquanto eclode, internamente o conflito dos sentidos e dos porquês

O que se era, em combustão
Pela sina do novo, pelo o que há de ser
Do que um dia foi tragédia
E que outro dia repetiu-se como farsa

Como a constância das mudanças da lua
Suas idas e vindas arrebatadoras
Sua extraordinária lição de resistência 
Que faz com que seu brilho mostre que ela ainda continua a mesma

Pelas entranhas que suscitam os dramas
e faz valer a apreciação da própria existência
Todas as brechas preocupantes
Todas as chances de poder experimentar-se

Na companhia de si só
Em um processo transitório que nos leva novamente a nós mesmos
De onde nunca pudemos sair 
Mesmo quando nos ausentamos da própria consciência

Uma reversão de antagonismos que aflige o que somos
Nas premissas confusas da mutabilidade que se faz necessária 
Pra que se entenda o movimento de todas as contrações 
Que provam que a dor é um dos melhores remédios pra se sentir vivo

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Atrito do homem gourmet

Pelo preço e pela categoria
Pela definição que faça valer o olho da cara
Onde o valor é calculado não pelo o que significa o contexto
Mas pelo o que se instaura no âmbito do produto final

Pra viver a boemia é preciso cacife
De quem ou pra que não importa
A conta sempre chega
Alguém tem que pagar

E vai na bunda de quem propõe
No olho do cu de quem faz o discurso
Chamar pro bar é uma dádiva
Determinar a direção da embriaguez é um dilema

E é na mesa que se esvai todos os problemas
Ou é na mesa que se causa todas as discórdias
Agir como quem não quer nada sempre foi a melhor saída
Pra que na saideira possa perambular a áurea dos sentimentos consumados


sábado, 16 de maio de 2015

Distância e paciência

Guarde seu show
Feche suas janelas
Ponha sua sobra em seus bolsos
Tampe por completo a pele que dá sentido ao seu corpo

Não deixe que descubram seus truques
Não permita intimidações
Aja na certeza de quem lhe chama
De quem lhe chama por completo

O mundo não é um sucesso
É um fardo de fracassos
Que ensina por seus golpes
Fazendo do chumbo a chance do ouro

Portanto guarde o seu show
Resguarde e ilumine suas virtudes
Pra fazê-las no tempo certo
Ao lado de quem te faz um grande amor

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Lição de casa

Curitiba, 29 de abril de 2015

Bate
Bate mais forte
Bata com toda sua força
Por cada palavra de ordem que te dão
Bata pela raiva que acomete sua razão

Porque mesmo estando do lado de cá eu consigo te entender
Dançando no contra-passo da música que me faz sangrar eu sinto pena de você
Teus olhos nunca baixam
Seguem uma reta rígida que impõe seus pensamentos a frieza de palavras que não te pertence

Talvez a culpa seja minha
Talvez eu mereça todas as porradas
E digo mais
Talvez seja pouco o efeito moral que suas bombas me causam

A sala de aula que nos contrapôs no passado
Não foi o bastante para que eu conseguisse lhe fazer pensar
Fiz do giz minha arma e do quadro minha armadura
Dando a vida por um ofício que acredito não ter sido suficiente

A rua hoje diz que sim
Diz que não lhe fiz esclarecer-se
De modo ao qual você se encontre adestrado
Invertendo os papéis na trama desta história

Portanto, me bata
Me bata para que eu aprenda a sua lição
Para que eu entenda de uma vez por todas
Que a engrenagem gira no sentido desfavorável de quem questiona
E que o lugar de quem se opõe é a submissão








domingo, 29 de março de 2015

Multi-Metamorfose

O tato que nos faz deduzir as feições e demais formas de um corpo
Nos engana por não ser coerente com o poder da nossa visão
Tudo o que podemos ver nos atinge com muito mais violência do que qualquer toque

Olhares constroem histórias
Olhares compõem memórias
Sem que palavra nenhuma seja dita
Sem que som algum seja proferido

Como as pálpebras que piscam
A vida muda e se transpõe
Numa profunda e complexa metamorfose
Que nos obceca em tentativas de compreendê-la como um todo

Não tente
Não se desperdice tentando
É nas entrelinhas subliminares que podemos entender

terça-feira, 24 de março de 2015

Mais leve que o céu

Subir e planar
Subir e planar
Sucessivamente
Ininterruptamente

Pra que nenhuma rédea seja necessária
Onde a distância fale por tudo e soe normal
Nunca baixando a cabeça
Nunca descendo

sábado, 7 de março de 2015

Rato de rolê

No meio do caminho tinha um bar
No meio do bar tinha um caminho
No meio da pinga tinha uma careta
No meio da cerveja uma filosofia

A mesa que envolve faz de mim um orador
Daqueles que engrandecem qualquer sílaba
O copo que me rege dita a mim todas estórias
De quantas escórias fui capaz de enfrentar

Desce breja
Senta mais um camarada
Passa gente que me odeia
Mas o copo sempre indo

A arqueologia dos roubos dos goles
A metodologia dos pedidos de tragadas
A ciência de todas as vontades
Explanada na miúda

Fumando a quimba que é presente
Na migué das saideiras
A fartura do copo que nunca oscila
Na constância de um bolso sempre vazio


sexta-feira, 6 de março de 2015

Bolso de malandro

Homem
Lobo do homem
Crente e descrente
Do mesmo santo e da utopia

Homem
Topo do inverso
Lago dos vazios
Berço dos mistérios

Pode pa que vai dar certo
Pode crer que vai ser feito
No jeito de quem se ajeita
E incomoda com seu jeito

Se não passar agente empurra
Se não for agente chuta
Mas vai
Mas foi

Homem
Gente que tenta
Gente que atenta e põe o dedo na ferida
Faz da terra uma sacola e de suas alças uma história


quarta-feira, 4 de março de 2015

Cadê o fundo ?

A força da gravidade exerce o seu papel
Enquanto desço me afogo em memórias
Num constante desespero que afronta meu orgulho
O peso é imenso e a força é incontrolável

A serenidade passa longe
Fica pouco pra sanar minha loucura
Flerta comigo em insights de pureza
Mas não se faz suficiente pela falta de lisura

É insustentável
É difícil
É ruim
É insuportável

Preciso do fundo
Preciso pisá-lo
Preciso da certeza de que nada possa piorar

domingo, 1 de março de 2015

Corpo insalubre

O mundo que cabe em meus olhos há de explodir
Permeado por visões que absorvem ódio
Enfraquecido por abstrações que levam embora a minha plenitude
Tudo o que me confunde expressa-se pela contração de minhas pálpebras

Sobre o que ouço
bastam os nomes que aclamo quando ecoam em minha presença
As vezes em que uma simples vírgula acaba soando como insulto
Ou do ponto final colocado no lugar errado

Que os enfermos que me afligem extinguam-se
Que a sina de dedo podre não se faça mais valer
Quero uma folha em branco
Quero uma página para escrever

Pra que seja bonito o sentido de se viver
Por algo belo que se possa ter
Por um orgulho que seja sadio e não me deixe destruir o que tenho
Pelo encaixe perfeito entre alguém, meu braço e meu peito

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Bobo rodado

Os agrados que insultam a lógica de qualquer bom senso
Quando a insistência em proporcionar sorrisos faz de alguém um corpo avulso
Não deixe que riam do seu melhor
Pois é horrível ver a entrega de quem a faz pra se foder

A graça que concebe ao tolo o poder de fazer rir
Machuca como uma pedra pontiaguda
Fere com força os estigmas de inocência e benfeitoria
Em troca de descaso e indiferença

Não há sentido em calejar as mãos para quem te explora
Não há reciprocidade em sangrar o seu melhor para quem não dá a mínima
O bem que te alude quanto ao melhor que te rodeia
Jamais será suficiente enquanto você não souber dizer não

Não ao que você não quer
Não ao que você não pode se deixar ser
Não ao que querem roubar de você

Pra que o íntegro de sua essência conspire à seu favor
Transbordando tua alma de sentimentos bons
Você terá de matar com toda a maldade do mundo qualquer coisa que possa lhe ferir