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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Sobre a melhor curva da estrada

Cruzou o cosmo igual poeira estelar
riscando de caneta meus escritos à lápis
rasgou as sete camadas de sua mãe
o meu peito, minha coragem e minha certeza
pintou de vida todo o cinza
irradiou ao som de um choro
com o corpo ainda sujo de vérnix
brilhando feito os olhos d'água de Maria Laura

Mudou tudo

Quando a tenho 
nos braços
me derreto com o seu olhar pro céu
o dedo apontado para cima
olhos curiosos de quem está descobrindo as coisas
balbucios
joelho vermelho de tanto engatinhar
risada que me droga às inquietações
acalento
o melhor do tempo
que passa depressa
me pesa
e me faz um atrasado

Durmo com medo
mas acordo te amando sempre mais.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Quartas-feiras de cinzas

As estampas das vestes,
tão quentes quanto o calor humano
o sol, o fogo e o sangue
passaram sarrando em corpos trôpegos
embriagadas de amor
criadas na fuga da dor
reinventadas
adaptadas
improvisadas na certeza de que unir-se basta

As batidas por minuto,
a música frenética
faz dos corpos dança viva
sons, espasmos ritmados involuntários
transpiração feliz
suor que vale a pena

E assim se vão os dias
e se faz o mito
onde festa é coisa séria
alegria é regra
tudo é povo
o povo é tudo

Carne que não é de carnaval
não é também desse planeta
terra onde quem adentra não sai
se conhece não esquece
imerge paralelo
emerge com saudade
de volta a neutralidade de cores de baixa intensidade
da naturalidade caótica
de dias cinzas








sábado, 3 de fevereiro de 2018

Poesia sobre a Nina

Nina é menina
gente
infelizmente humana
encantadoramente mulher

e como gente
humana que é
tem olhos
nariz, ouvidos e boca

e como toda boca
é boca de gente
onde o que se fala (por enquanto apenas tenta)
são palavras

palavras são o que escrevo
e por mais que tente
em palavra não cabe gente
não cabe humano
mulher
nem menina
quem dirá a Nina.

Vida Desgraçada

O peso líquido oscila,
equaciona o bruto do produto interno
que se traveste em duração
na supressão que faz o tempo valer

quisera a teia poder tecer a aranha
a inversão,
o objeto do resultado
o contrário de tudo
o depois do antes
que ainda nem foi
derivação
igual derivado do mesmo
do parecido
como imita, lembra
recorda
o análogo,
similar
explicado por sinônimos
a indiferente mesmice
medida pela distância entre ser, suportar e sonhar
o esforço revolucionário da repetição


Ofego demais
demasiadamente
em demasia à mente
em esperas
e trocas
qual sou e me faço, pelo que expiro
quando impreciso, e julgo preciso ter
ou até mesmo o equivalente ser
ao que de mim se faz necessário

Já sou dois
e dobrado
me atento
ao que posso e aguento
suporto, supro e somo
no mar como se fez urgente
para mostrar-me o mundo parelho pra caralho !

E dele me cabe
ao qual me basta entender
o que de fato emana sentido
valor e bravura
é a vida temer a morte
passar
ir e vir
no devir da passagem
dos ciclos
morrer durante e nascer no fim.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Bobeira

Não me engana a tristeza
Que me leva a crer
Que perder é prejuízo
Onde ganhar é tão pouco
Um detalhe impreciso
E que sonhar ainda é melhor
Do que ser submisso

Não me engana o relógio
Que me leva a crer
Que esperar é preciso
Amargar dissabor
Adiar os sorrisos
No apego ao que jaz
E não foi nunca mais

Para sempre nunca mais.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O diabo na terra do sol

Eu sou
O diabo e o sol
o sagrado e o vento
morte e nascimento

na boca do inferno eu bati e vi
que era aqui, que o plano é um só
é só terra e morro
o que cabe nos olhos
e que alcança a visão

Eu sou
o retrato, o futuro
a expansão do tempo
um novo advento

É como a água que escorre
a pele que estica e a perna que corre
boca que fala e reclama
corpo que envolve e promove a vontade que ebule
a fala que explode
a luta que eclode
não se engane com o mundo
pegue suas pedras e vem pro tumulto
atire suas pedras e mude o mundo

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Estamos em OBRA

Para Filipe Castro


Creio nas palavras mudas
dispensáveis, sob olhares entendidos
braços insistentes
entre notas e respostas
das inquietudes que nos acometem

creio na coragem de quem paira ao centro para cantar
do peito casa que se abre para expor o amor
a dor e a delícia de se fazer gente em som
onde mesmo sem a dança que abraça os corpos
não há medo para calar

creio na junção, somatória de anseios
no alinhamento do cosmo
na astrologia das estrelas solitárias sem brio
avivadas na força de um conjunto
com braços e abraços fortalecendo-se no mesmo propósito

A distância entre o fato e a quimera
é o espaço perpétuo de labutas e tentativas
práxis árdua
tijolos, pedreiros e uma obra a ser feita

logo atrás, estarei sempre intenso
nas levadas da batida que nos une
esperando seus solos ou deixas
entre improvisos, instintos, erros e acertos

então vá longe menino
voe alto como o pássaro tatuado em teu peito
voe no tamanho da vontade das noites de delírio
em teu quarto
em teus desejos e arranjos
na grandeza do arrojo
de mudar o novo
sem que ninguém possa te impedir de sonhar






sábado, 28 de outubro de 2017

algumacoisa.mp3

O couro estica e
apanha da mão
tange a dor em deleite
arde a palma pulsante

o corpo
em transe
confunde-se com movimentos
em tempos
repetições
frações
refrões

líricas diversas
de notas
tons
e ideias
um sonho que ecoa em frenquências
toca a pele por meio de suas ondas
e faz tremer como um grave
o peito do sonhador

minha música não tem preço
rasante em chão
errada demais para ser alguma coisa
não tem cor
nem cheiro de novo
é justaposição do meu passado
do que já fui e que coube em um som
tronco a vista mas com raíz
analógico, elétrico, digital
visceral
escape psicosocial
de um coração que ainda bate
ritmado em aceleração constante
em ressonância aos acordes da vida



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Amor e rE(x)istência

Hoje acordou o dia
que se arrasta pelo resto de outubro
raiou as sobras do resto de um 2017
que se esvai inconstante
em datas
prazos e planos

morrem os dias
as semanas
meses e anos
para que nasçam os dias
semanas
meses e anos

a régua do tempo segue reta
abrange tudo o que lhe cabe enquanto dura
suporta
sua finitude é a vida e a morte
o marco zero de uma escrita
e o subsequente ponto final

mas não cabe em medições os feitos
produtos
subprodutos derivados de alguém
que se guardam ou se perdem
respingados
transbordados
transportados no outro
em quem toca ou corre
teme, encara, ouve ou vê
em medições de outras réguas
lineares
também limitadas
que também se perdem em respingos
das sobras e das faltas
que preenchem ou faltam nas lacunas

vida e morte são detalhes
tempo é relativo
mundo é o que se vê
feitos e fatos são variantes constantes
obras que transpassam a existência

e cabe aí o que tiver de ser
nascido de onde quer que tenha vindo
na forma inédita em que se criou
por quem
ou para que
se fizesse um sentido em seguir
acreditando na contagem do relógio
pela espera do depois
enquanto averígua-se os vestígios do que se foi

somos as sobras e as faltas de todas as réguas que nos invadem
vivemos nos dias consequentes
do espaço tempo em que nos colocamos a vir existir
tentando entender onde cabemos e a que serviremos
de modo a ser quem ?
eu não sei
mas o branco do vazio não significa tristeza
é régua a se medir
espaço a ocupar
se fazer valer
resistir
e amar


sábado, 21 de outubro de 2017

pensamentos de um rapaz latino americano sem dinheiro no banco

Por quem,
eleva tua crença ?
faz curva fechada em desavença
estes braços tão pesados
levantam
a quem, os blocos de concreto ?

Para que tudo se edifique
suba ao alto feito um prédio
e caia abaixo como ocupação
então,
militas a quem tua esperança ?

Verás mesmo que um filho teu não foge a luta ?
ou julgarás covarde
quem correu simplesmente por ter medo
por temer

Temer
A força que se faz acima sem botar o próprio sangue na mesa
que bebe da inocência de quem crê que sabe a trama
e se inflama
no discurso de palavras que driblam
as vielas, as favelas
a vida do preto e do pobre

Que cante o corvo, a ida eterna dos que se fazem das falácias,
dona morte
encarregue-se da urgência de buscar quem se esconde
ou pensa que consegue esconder

O ouro da coroa ainda fede
cheira à putrefação dos nossos antigos
e dos nossos filhos,
resta a cápsula
ou o projetil como projeto moderno,
da arma de fogo
engenharia da morte

As palavras que escrevo valem não somente para isso aqui
veste a carapuça de Cuzco, Sucre, Huanchaca e Potosí
das Antilhas ao Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília ou Uberaba
permeia vivo nessa terra a vida
a morte
o sonho
de Sandino, Zumbi, Simon Bolívar, Lampião e Marighella
jazes heróicos
sacrifícios
e vontades de se costurar, da Argentina ao México
as veias abertas dessa américa latina

Porque a história se repete
primeiro como farsa
depois como tragédia




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Palavra Cruzada

Se nestas letras me faço gente
homem ou humano,
quem posso querer ser ?
pois me falta sincronia
do que sinto e quero dizer
com as palavras que conheço

Falas arrastam
de dentro para fora
a liberdade
a liga, perícia
das bocas falantes e pés rastejantes,
quais passaram por mim
mostrando suas cores

Espero e me demoro em silêncios
me falta a sincronia
Debruço-me calmo no papel em branco
me falta a sincronia
e nas sombras da noite respiro tranquilo
pois me falta a sincronia
Graças a Deus
me falta a sincronia

Vou passear nas ruas
vou virar às esquinas
sincronizar
cruzar palavras


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Calabouço

Canta o galo apressado
sem sol que dá bom dia
rompe meus olhos em cima das horas
a espera do atraso que tenho com a vida

Frestas clareadas
quadrado desfeito
tenho por casa o asfalto que piso
o que me faz gastar o tempo
em trocas de sonhos
certeza do pão

Falas que se repetem
medem tua força por metas
muito por pouco ou nada
do que nem é seu
do que jamais lhe pertencerá

Por trás de um balcão em plena corrida
deixando pra lá
pra depois
tudo
sempre

A Soma das crenças com as descrenças
o resultado dos passos que dei.